O que realmente significa estar presente? E por que é mais do que “viver no momento”

O advento das redes sociais tornou comum escutar que precisamos “viver no momento”, “esteja no agora” e “aproveite o momento”. Mas será que sabemos o que estar presente realmente significa? Porque quando falamos sobre viver o agora, raramente explicamos o que de fato significa.

O cérebro não foi feito para permanecer no presente

Um dos motivos pelos quais estar presente pode ser difícil está no próprio funcionamento do cérebro humano. Ele tem uma tendência natural de revisitar situações, simular o futuro, antecipar problemas e criar diferentes cenários. Esses processos fazem parte do pensamento espontâneo e estão relacionados a funções importantes como memória, planejamento e construção de cenários futuros1,2.

Embora essas habilidades possam contribuir para planejamento e sobrevivência, elas dificultam a permanência atencional no presente quando se tornam excessivas ou automáticas2. 

Sabe quando você está escovando os dentes e de repente seus pensamentos voltam para aquele momento do dia que você teve a oportunidade de ter uma conversa com seu chefe, mas não teve? Quando não estamos focados em uma tarefa, uma rede de regiões cerebrais chamada Rede de Modo Padrão está associada a divagação mental (saiba mais sobre a Rede de Modo Padrão aqui)1.

Pensar no futuro ou no passado não é o problema

Quem de nós nunca se pegou relembrando o passado, ou até pensando em cenários futuros? E isso não é um problema por si só. Contudo, isso se torna um problema quando nos distanciamos daquilo que estamos fazendo: deixamos de ouvir o outro durante uma conversa. Ou estamos lendo e quando chegamos no final da página percebemos que não lembramos do conteúdo que acabamos de ler. Ou quando estamos em um jantar com amigos e passamos o tempo todo no celular. E na verdade, segundo pesquisas sobre experiências cotidianas, a mente humana passa um tempo significativo pensando em algo diferente da atividade que estamos fazendo3.

Perceba como nessas situações você estava fisicamente presente, mas não estava psicologicamente presente? Então quando falamos sobre aproveitar o agora não é estar fisicamente presente, é sobre colocar o celular no bolso e participar das conversas. É sobre ler um livro e saber o que está lendo. É ouvir o relato do seu melhor amigo e apoiá-lo. É sobre ser intencional.

Estar presente é atenção intencional

Aqui você pode se perguntar, mas como eu consigo estar psicologicamente presente? A presença envolve diferentes processos relacionados à atenção e às funções executivas, como o controle atencional, o monitoramento e a capacidade de mudar o foco quando necessário4. 

O psicólogo norte-americano Michael Posner explica que a atenção é como um sistema que é composto por vários processos, entre eles estão os que são responsáveis por controlar e direcionar o foco da atenção4.

Então quando falamos sobre estar presente não é apenas “prestar atenção”.

Sabe quando você pega o celular e, quase automaticamente, abre uma rede social enquanto assiste a uma série? Ou quando está conversando com alguém, recebe uma notificação e, antes mesmo de perceber, já está olhando para a tela?

Nessas situações, sua atenção foi direcionada para outro estímulo. O que precisamos entender aqui é que estar presente não significa que você nunca vai se distrair. É na verdade ser capaz de perceber que sua atenção foi desviada e conseguir trazê-la de volta.

No caso dos exemplos acima, estar presente é deixar o celular de lado e assistir à série. Ou escolher ignorar a notificação e continuar a conversa.

Estar presente é perceber que seus pensamentos voaram durante a leitura e conseguir voltar ao texto.

Perceba que a presença não demanda silêncio da mente, isso é impossível. Mas sim perceber para onde sua atenção foi, e ser capaz de trazê-la de volta.

Estar presente também é estar atento a si mesmo 

Porém, de nada adianta estar presente para o mundo externo, se não estivermos presentes para nós mesmos. Presença também é estar atento ao que acontece dentro de nós. 

Sabe quando algo inesperado acontece e você percebe que ficou frustrado. Você pode então externar a frustração em uma reação exagerada, com alguém que talvez não tenha nada a ver com a situação, ou se fechar. Ou você pode perceber essa frustração antes de agir.

Essa percepção pode gerar um espaço entre aquilo que estamos sentindo e aquilo que fazemos. E é muito importante para que possamos regular nossas respostas emocionais5.

Ou seja, reconhecer experiências e emoções como frustração, tristeza, ansiedade e raiva, sem agir imediatamente.

Existem diversas maneiras pelas quais você pode buscar o autoconhecimento para estar presente para si mesmo. No Blog da UMAJUDA existem diversos conteúdos que podem te ajudar nessa jornada de Autoconhecimento.

Conclusão

Agora será que você é capaz de explicar o que significa estar presente e porque é mais que viver no momento? 

Estar presente é sobre disponibilidade para o agora, seja um jantar com amigos, uma conversa na escola, uma leitura ou assistindo um filme.

Você não precisa deixar o passado para trás, ou deixar de pensar no futuro. Afinal de contas, o cérebro não funciona assim. 

E não é necessário uma mente vazia, é necessário perceber onde ela está.

1 – RAICHLE, Marcus E. The brain’s default mode network. Annual Review of Neuroscience, v. 38, p. 433-447, 2015. DOI: 10.1146/annurev-neuro-071013-014030.

2 – SMALLWOOD, Jonathan; SCHOOLER, Jonathan W. The science of mind wandering: empirically navigating the stream of consciousness. Annual Review of Psychology, v. 66, p. 487-518, 2015. DOI: 10.1146/annurev-psych-010814-015331.

3 – KILLINGSWORTH, Matthew A.; GILBERT, Daniel T. A wandering mind is an unhappy mind. Science, v. 330, n. 6006, p. 932, 2010. DOI: 10.1126/science.1192439.

4 – PETERSEN, Steven E.; POSNER, Michael I. The attention system of the human brain: 20 years after. Annual Review of Neuroscience, v. 35, p. 73-89, 2012. DOI: 10.1146/annurev-neuro-062111-150525. 

5 – GROSS, James J. The emerging field of emotion regulation: an integrative review. Review of General Psychology, v. 2, n. 3, p. 271-299, 1998. DOI: 10.1037/1089-2680.2.3.271. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *