Você já reparou que, quando alguém aponta uma qualidade sua, ficamos um pouco surpresos? Costumamos agradecer, retribuir o gesto e, muitas vezes, saímos da conversa pensando se realmente possuímos essa qualidade.
Agora, quando acontece o contrário e alguém aponta um defeito, somos rápidos em reconhecer aquilo que está errado. Por que será que, tantas vezes, aceitamos nossas falhas mais facilmente do que reconhecemos nossas qualidades?
A maneira como nos enxergamos
Um dos primeiros pontos que precisamos considerar é que nossa percepção de nós mesmos não é neutra. Além disso, ela não representa uma visão exata e completa de quem somos.
De acordo com o estudo Do People Have Insight Into Their Abilities? A Metasynthesis, de Ethan Zell e Zlatan Krizan, nossa capacidade de avaliar as próprias habilidades é moderada. Ou seja, nem sempre conseguimos reconhecer com precisão nossas capacidades, principalmente quando fazemos avaliações mais gerais sobre nós mesmos1.
O peso dos erros
Como refletimos acima, nem sempre conseguimos avaliar nossas próprias características com precisão. Adicionalmente, temos uma tendência a dar mais atenção a críticas negativas, erros cometidos e experiências negativas do que para experiências positivas. A noite, quando você deita a cabeça no travesseiro, quanto tempo passa pensando naquele erro cometido no trabalho?
E não é só você. Em um estudo com pouco mais de 1.400 participantes, pesquisadores analisaram como informações positivas e negativas influenciam a maneira como nos percebemos. Os resultados mostraram que informações negativas, quando contrariam a imagem que temos de nós mesmos, provocam mudanças maiores no autoconceito do que informações positivas2.
Assim, podemos compreender melhor por que nossos erros parecem ter tanto peso: muitas vezes, damos mais atenção às críticas negativas e deixamos de perceber ou valorizar os elogios que recebemos.
A dificuldade de aceitar elogios
Quantas vezes você teve dificuldade de aceitar um elogio, seja ele sobre algo que você fez, a roupa que está usando, seu desempenho acadêmico ou até mesmo seu cabelo? Ficamos sem graça no momento e chegamos a minimizar ou rejeitar esses comentários positivos, porque temos dificuldade de reconhecer essas qualidades em nós mesmos.
Em seu artigo Self-Compassion: Theory, Method, Research and Intervention, a psicóloga norte-americana Kristin D. Neff apresenta o conceito de autocompaixão, que envolve desenvolver uma postura mais gentil e compreensiva diante de nós mesmos, inclusive quando cometemos erros ou enfrentamos dificuldades3.
Isso não significa ignorar nossas limitações ou deixar de reconhecer aquilo que precisamos melhorar. Pelo contrário, a autocompaixão nos ajuda a reduzir o autojulgamento e a lidar com nossas dificuldades sem transformar cada erro em uma condenação pessoal3.
A construção da autopercepção
Todas as nossas experiências e vivências, sejam elas negativas ou positivas, assim como os nossos erros e acertos, influenciam a maneira como analisamos nossas próprias características. Em conjunto, esses elementos participam da construção da nossa autopercepção.
Vale ressaltar que a autopercepção não é imutável. Ela pode ser transformada a partir de novas experiências e informações que recebemos. Portanto, a maneira como nos enxergamos também muda ao longo do tempo4.
Imagine que você passou a semana toda se preparando para a prova de redação. Estudou o conteúdo de sala de aula e as dicas dadas pelo professor, leu as principais notícias do país para se preparar para um possível tema da atualidade. Na hora da prova, escreveu e reescreveu alguns parágrafos, tentando construir um texto coerente, conciso e claro.
Ao deixar a sala, você sentiu que foi bem. Mas, na semana seguinte, o feedback do professor não foi tão positivo quanto esperava.
O que ele apontou fez você questionar a própria percepção sobre seu desempenho no dia da prova. Somada a isso, a nota abaixo do esperado fez você se sentir insuficiente, mesmo tendo conquistado um oito e meio.
A nota não é ruim, mas não correspondeu ao resultado que você esperava. Essa distância entre o resultado alcançado e aquele que imaginávamos pode interferir na maneira como avaliamos nossas próprias capacidades.
Com o exemplo acima, fica mais fácil compreender como a construção da nossa autopercepção é influenciada por diferentes aspectos, como nossas expectativas, experiências e avaliações recebidas de outras pessoas.
Nessa situação, você poderia se julgar incapaz se olhasse apenas para aquelas características que ainda precisa desenvolver. Porém, precisamos olhar de maneira mais ampla para quem somos, considerando tanto as habilidades que já dominamos quanto aquelas que ainda precisamos desenvolver. Esse é um caminho para reconhecer as nossas qualidades sem perder de vista nossas limitações.
Conclusão
Retomando a pergunta inicial, por que será que, tantas vezes, aceitamos nossas falhas mais facilmente do que reconhecemos nossas qualidades? Talvez porque não damos às nossas qualidades o mesmo espaço que damos aos nossos erros.
Existe uma assimetria entre a maneira como reconhecemos esses dois lados da moeda. Contudo, é possível aprender a reconhecer nossas qualidades e construir uma imagem mais equilibrada e realista de nós mesmos.
1 – ZELL, Ethan; KRIZAN, Zlatan. Do People Have Insight Into Their Abilities? A Metasynthesis. Perspect Psychol Sci. 2014 Mar;9(2):111-25. doi: 10.1177/1745691613518075. PMID: 26173249.
2 – BROTZELLER, Franziska; GOLLWITZER, Mario. Exploring Asymmetries in Self-Concept Change After Discrepant Feedback. Pers Soc Psychol Bull. 2025 Sep;51(9):1731-1744. doi: 10.1177/01461672241232738. Epub 2024 Mar 4. PMID: 38439571; PMCID: PMC12276396.
3 – NEFF, Kristin D. Self-Compassion: Theory, Method, Research, and Intervention. Annu Rev Psychol. 2023 Jan 18;74:193-218. doi: 10.1146/annurev-psych-032420-031047. Epub 2022 Aug 12. PMID: 35961039.
4 – THIELMANN, I., Back, M.D., BLEIDORN, W. et al. A Consensus Statement on self-knowledge conceptualization, measurement, outcomes and changeability. Nat Rev Psychol 5, 338–351 (2026). https://doi.org/10.1038/s44159-026-00554-1
