Por que algumas tarefas parecem mais difíceis antes de começar?

Quem nunca adiou começar uma tarefa por que ela parecia desafiadora? Um e-mail de trabalho com texto longo e detalhado, um projeto da faculdade ou até aquela luz que queimou no corredor e você sempre “esquecia” de comprar uma nova. Até que você chegou no limite e precisava tirar essa tarefa do caminho, e no fim ela levou apenas alguns minutos.

A tarefa continuou a mesma, mas construímos uma ideia de que ela vai exigir muito de nós. Aos poucos, ela se transforma em uma montanha a superar, algo desproporcional na nossa cabeça.

O peso de uma tarefa que nem começou

Você já chegou no trabalho, olhou para todas as atividades do dia e começou a pensar em maneiras de adiar aquele e-mail longo porque ele parecia trabalhoso demais?

A ciência aponta que tarefas percebidas como desagradáveis ou difíceis podem contribuir para a procrastinação. Em uma revisão e meta-análise, o pesquisador Piers Steel identificou a aversividade da tarefa, ou seja, o quanto ela é percebida como desagradável, entre os fatores associados ao adiamento de atividades1.

Adiar também uma maneira de evitar o desconforto

Todo mundo tem aquela tarefa dentro da rotina de casa que gosta menos. Uma atividade comum de ser adiada é lavar o banheiro: porque é tediosa, porque demanda tempo ou porque precisamos lidar com a sujeira. É um esforço que nem sempre estamos dispostos a fazer, principalmente quando podemos fechar a porta, sentar no sofá e assistir a um filme. O banheiro que espere até amanhã.

Esse comportamento também pode estar relacionado à regulação emocional. Quando escolhemos o filme em vez de encarar uma tarefa desagradável, podemos estar priorizando o alívio imediato, mesmo que isso signifique deixar a pendência para depois. Nesse caso, amanhã ainda será preciso limpar o banheiro2.

Quando finalmente começamos

Retomemos o exemplo da lâmpada queimada no corredor. Um dia, você passa em frente a uma loja e resolve parar para comprar uma nova. Chega em casa, pega a escada, retira a lâmpada queimada e coloca a outra no lugar. Quando acende a luz, percebe que gastou apenas alguns minutos com uma tarefa simples. 

A dificuldade que você antecipou não correspondeu à dificuldade real de trocar a lâmpada. 

Começar uma tarefa nem sempre faz os problemas desaparecerem, até porque nem todas são tão simples como trocar a lâmpada. Mas dar o primeiro passo pode nos ajudar a descobrir o que realmente precisamos fazer, em vez de permanecer apenas imaginando o tamanho do desafio.

Fica, então, uma reflexão: quantas vezes você gastou energia pensando em uma tarefa e adiando seu início, em vez de começar? E quantas vezes a montanha que construiu na sua cabeça acabou sendo maior do que a dificuldade que encontrou na prática?

Na próxima vez que pensar em adiar a louça para assistir a um episódio da sua série favorita, talvez valha a pena experimentar inverter a ordem. Lave a louça primeiro e aproveite a série depois. Quem sabe a tarefa não era tão difícil quanto parecia?

1 – STEEL, Piers. The nature of procrastination: a meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure. Psychological Bulletin, v. 133, n. 1, p. 65–94, 2007. DOI: https://doi.org/10.1037/0033-2909.133.1.65. Disponível em: PubMed. Acesso em: 20 out. 2026.

2 – SIROIS, Fuschia M.; PYCHYL, Timothy A. Procrastination and the priority of short-term mood regulation: consequences for future self. Social and Personality Psychology Compass, v. 7, n. 2, p. 115–127, 2013. DOI: https://doi.org/10.1111/spc3.12011. Disponível em: White Rose Research Online. Acesso em: 20 out. 2026.

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