Você já parou para pensar que, quando está aprendendo algo novo, você está provocando uma mudança no seu cérebro?
Para o cérebro humano, aprender vai muito além de armazenar informações. Sempre que você aprende algo novo, ele reorganiza e fortalece conexões entre neurônios e, em alguns casos, forma novas conexões, remodelando circuitos neurais e alterando a forma como essas células se comunicam. Portanto, aprender é um processo de transformação1,2.
E essa transformação biológica só é possível porque o cérebro é capaz de se adaptar devido à neuroplasticidade3.
Você pode estar se perguntando, como essa transformação acontece?
Tudo começa pela atenção
Apesar de parecer, a transformação não é imediata.
Antes de a informação se tornar aprendizado, o cérebro avalia se ela merece atenção. Isso porque, diariamente, recebemos milhares de estímulos: sons, imagens, pensamentos e sensações. E como seria impossível processar tudo ao mesmo tempo, mecanismos de atenção selecionam aquilo que consideram importante naquele momento.
É por isso que a atenção é o passo inicial para o aprendizado, mas se você estiver fazendo mais de uma tarefa ao mesmo tempo, cansado ou ansioso, seu cérebro não vai conseguir aprender. Porque esse recurso cognitivo é seletivo e limitado, sendo também influenciado pelas emoções.
Ou seja, se você não tiver atenção, dificilmente vai aprender de maneira consistente.
O cérebro tenta dar significado ao que recebe
Agora que o cérebro já recebeu a informação, o próximo passo é compará-la ao conhecimento adquirido previamente. Nessa etapa o cérebro vai procurar padrões para criar uma associação entre o que foi captado e o que já conhece.
Por exemplo, todos passam pelas aulas de química no colegial tentando decorar a tabela periódica. Mas, se você não for alguém com memória fotográfica, pode ser bem difícil lembrar tudo. Por outro lado, parece que fica mais fácil quando o professor transforma a tabela em música para te ajudar a aprender.
Afinal de contas, aprender não é o mesmo que decorar, e quando ela é associada a conhecimentos prévios ou a elementos com significado, como uma música, fica mais fácil para lembrar no futuro.
A neuroplasticidade em ação
Após processar a informação, o cérebro muda para se adaptar a ela. E como citado no começo, o cérebro só é capaz de mudar por conta da neuroplasticidade (saiba mais sobre clicando aqui).
As conexões neurais podem ser fortalecidas, reorganizadas e, em alguns contextos, novas conexões podem ser formadas. Tudo isso com o objetivo de que a comunicação entre os neurônios seja mais eficiente1.
Hipocampo em ação
Aprender envolve diversas regiões cerebrais. Uma delas é o hipocampo, que atua na formação de novas memórias e na organização de informações aprendidas recentemente4.
Outras regiões do cérebro vão trabalhar junto com o hipocampo, dependendo do tipo de aprendizagem. Entre elas estão o córtex pré-frontal, córtex motor, cerebelo e gânglios da base. Além disso, cada tipo de aprendizagem vai recrutar um circuito neural diferente.
O papel do sono
Anteriormente no Blog da UMAJUDA, discorremos sobre o papel do sono na memória, que é fundamental para o aprendizado. Para acessar o conteúdo é só clicar aqui.
Enquanto dormimos, acontece a consolidação da memória, a reorganização das informações, o fortalecimento das conexões neurais e o cérebro também descarta aquilo que julga desnecessário4,5.
Portanto, o aprendizado não acontece apenas quando estamos acordados, mas também durante o sono.
O papel da repetição
Quem nunca ficou repetindo um número de telefone para tentar não esquecer, não é mesmo?! A repetição não serve só para decorar um número, mas é vital no aprendizado.
Pense na repetição como um músculo do corpo, quanto mais você exercita ele, mais ele se fortalece e cresce.A repetição fortalece as conexões neurais envolvidas na aprendizagem e torna determinados circuitos mais eficientes1.
Dependendo do tipo de aprendizagem, a prática repetida pode contribuir para que determinadas habilidades se tornem cada vez mais automáticas, envolvendo principalmente sistemas de memória não declarativa4.
Errar faz parte do aprendizado
Quando você estava aprendendo uma nova língua, uma nova habilidade motora, com certeza cometeu um erro. Mas você sabia que o erro também ajuda o seu cérebro no processo do aprendizado?
O cérebro humano é capaz de perceber a diferença entre o resultado que era esperado e o resultado obtido, e isso oferece a ele uma oportunidade de ajuste. Essa diferença é chamada de erro de previsão, e o cérebro interpreta como algo a ser aprendido6.
Nesse momento, entra em ação a dopamina, que também integra o sistema de aprendizado. Essa substância auxilia o cérebro na percepção de que determinada experiência trouxe uma informação nova a ser aprendida7.
Pense que você entregou um documento ao seu chefe e pediu um feedback para ele. Ao ler, ele aponta algumas melhorias. Ao refletir sobre o que ele disse, você dá ao cérebro a oportunidade de ajustar as conexões e aperfeiçoar o funcionamento.
Ou seja, ao reconhecer que errou, você dá ao cérebro a chance de compreender o que aconteceu, modificar o que for preciso e aprender.
Mas, por que eu esqueço?
O esquecimento não é necessariamente uma falha. Lembre-se que informações pouco utilizadas tendem a enfraquecer ao longo do tempo, enquanto outras são fortalecidas para evitar uma sobrecarga4.
Então, de uma forma, esquecer também faz parte do aprendizado. Naquele momento, seu cérebro enfraqueceu ou eliminou determinada informação em detrimento do aprendizado que julgou mais importante.
Considerações finais
Como dito no começo deste texto, aprender não é apenas armazenar uma nova informação. Aprender é um processo de transformação do cérebro. Cada nova palavra, movimento ou habilidade altera, fortalece circuitos e conexões entre os neurônios , e ainda promove uma reorganização física do cérebro.
Por isso, podemos entender o aprendizado como processo de transformação e adaptação contínua do cérebro através da capacidade dele de se reorganizar e mudar todos os dias.
1 – KANDEL, Eric R. et al. Principles of Neural Science. 6. ed. New York: McGraw-Hill Education, 2021.
2 – PURVES, Dale et al. Neuroscience. 6. ed. New York: Oxford University Press, 2018.
3 – BEAR, Mark F.; CONNORS, Barry W.; PARADISO, Michael A. Neuroscience: Exploring the Brain. 4. ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2015.
4 – SQUIRE, Larry R.; KANDEL, Eric R. Memory: From Mind to Molecules. 2. ed. Greenwood Village: Roberts and Company Publishers, 2009.
5 – WALKER, Matthew. Why We Sleep: Unlocking the Power of Sleep and Dreams. New York: Scribner, 2017.
6 – SCHULTZ, Wolfram; DAYAN, Peter; MONTAGUE, P. Read. A neural substrate of prediction and reward. Science, Washington, v. 275, n. 5306, p. 1593–1599, 1997.
7 – SCHULTZ, Wolfram. Dopamine neurons and their role in reward mechanisms. Current Opinion in Neurobiology, London, v. 7, n. 2, p. 191–197, 1997.
