Imagine isso: você está montando um documento do trabalho, quando chega um e-mail. Você então começa a responder o e-mail, quando chega uma mensagem de um familiar. Você para o e-mail e começa a responder a mensagem. Quando você volta para o documento, não lembra mais o que realmente estava fazendo antes.
Muitos diriam que isso é ser multitarefa, mas existe uma diferença entre fazer duas coisas simultaneamente, e alternar entre duas tarefas rapidamente.
Afinal, o que é multitarefa?
Para entender o que é multitarefa, precisamos antes diferenciar conceitos importantes.
- dupla tarefa (dual-task): quando realizamos duas tarefas em uma mesmo período de tempo1;
- divisão de atenção: quando tentamos dividir a atenção entre diferentes demandas1;
- troca de tarefa (task switching): quando alternamos entre tarefas1;
- multitarefa: termo usado de maneira ampla para quando estamos em uma situação que envolve múltiplas tarefas1.
Importante ressaltar que, muitas vezes, quando usamos o termo multitarefa estamos, na verdade, nos referindo a uma situação de troca rápida de tarefas.
Outro ponto que vale ressaltar é que segundo pesquisadores, a troca de tarefa nos deixa mais lentos e até mais sujeitos a erros no momento em que trocamos de uma demanda para a outra1,2.
O cérebro consegue mesmo fazer duas coisas ao mesmo tempo?
Então, depende, às vezes sim. Mas provavelmente não acontece como você imagina. Afinal de contas, não existe um botão que possa acionar o “modo multitarefa” do cérebro.
Tarefas que dependem de processos relativamente automatizados ou que demandam habilidades cognitivas diferentes podem, em determinadas circunstâncias, ser realizadas ao mesmo tempo.
Por exemplo: você consegue sair para uma caminhada com um amigo e conversar enquanto andam, porque andar não exige um esforço consciente quanto a conversa demanda.
Por outro lado, quando as tarefas exigem um processo controlado de atenção ou dependem da memória de trabalho, elas podem competir pelo processamento cognitivo. Realizá-las simultaneamente pode gerar interferência ou um declínio no desempenho3.
Sabe quando você está estudando para uma prova importante, de um tema que talvez você não domina tanto, e ao mesmo tempo manter uma conversa com um amigo, e percebe que não está conseguindo fazer nem um nem outro? Pois é: essas tarefas estão competindo e gerando interferência uma na outra3.
O custo de tentar fazer tudo
Quando tentamos realizar simultaneamente duas tarefas que competem pela atenção e memória de trabalho, a multitarefa pode cobrar seu preço.
A atenção é um recurso seletivo e limitado. Ela não é infinita. Por isso, as informações que chegam até nós passam por uma seleção, e aquilo que é mais relevante naquele momento recebe prioridade em relação às demais informações3. Quando tentamos direcionar a atenção para mais de uma demanda, podemos, portanto, comprometer nosso desempenho.
Já no aspecto da memória de trabalho, uma tarefa mais complexa demanda que informações relevantes permaneçam disponíveis temporariamente. Quando você interrompe essa tarefa, parte desse contexto – o que você está fazendo, o que já foi feito e o que ainda falta – precisa ser recuperado4,5.
É por essa razão que qualquer interrupção aparentemente pequena pode ter um efeito maior do que imaginamos. Além de recuperar o contexto, também precisamos reorganizar mentalmente o que estávamos fazendo4,5.
Sabe quando você se sente desgastado depois de tentar responder os e-mails, e as mensagens e ainda terminar aquele relatório simultaneamente? Você está deslocando sua atenção constantemente, e isso pode se tornar um problema.
O ponto principal é que, apesar do cérebro ser capaz de acompanhar várias demandas por um período de tempo, isso não quer dizer que ele esteja processando todas elas com a mesma eficiência ou profundidade.
Como posso lidar com a multitarefa?
Você pode estar se perguntando como lidar, então, com a multitarefa e tentar evitar os custos da constante troca de atenção e das interrupções. Principalmente nos tempos atuais, que as notificações do celular, do e-mail e as múltiplas abas no computador são uma constante.
A virada de chave não está em treinar seu cérebro para ser multitarefa, mas em reconhecer que, se determinadas tarefas exigem mais da atenção e da memória, pode ser mais eficiente diminuir as trocas desnecessárias entre elas.
Contudo, isso não quer dizer que você sempre vai precisar fazer uma coisa por vez. Quer dizer que você precisa entender que certas atividades demandam mais da nossa atenção, assim reduzir as trocas pode ajudar a preservar nossa eficiência e desempenho.
Conclusão
O cérebro multitarefa existe?
Sim, em determinadas circunstâncias. Contudo, temos o costume errôneo de chamar a alternância entre tarefas de multitarefa.
Caminhar e conversar ao mesmo tempo é possível porque essas atividades não demandam o mesmo nível de processamento consciente. Já responder um e-mail enquanto se escreve um texto pode fazer com que essas tarefas compitam pela atenção e pela memória de trabalho.
Assim, a questão pode não ser sobre tentar descobrir quantas coisas o cérebro consegue fazer ao mesmo tempo. Talvez seja sobre perceber quantas vezes estamos demandando que o cérebro mude o foco sem necessidade.
Afinal, fazer várias coisas ao mesmo tempo não significa, necessariamente, fazer tudo bem feito.
1 – Monsell S. Task switching. Trends Cogn Sci. 2003 Mar;7(3):134-140. doi: 10.1016/s1364-6613(03)00028-7. PMID: 12639695.
2 – Kiesel A, Steinhauser M, Wendt M, Falkenstein M, Jost K, Philipp AM, Koch I. Control and interference in task switching–a review. Psychol Bull. 2010 Sep;136(5):849-74. doi: 10.1037/a0019842. PMID: 20804238.
3 – Wu Y, Wang Q. Dual-task interference: Bottleneck constraint or capacity sharing? Evidence from automatic and controlled processes. Atten Percept Psychophys. 2024 Apr;86(3):815-827. doi: 10.3758/s13414-024-02854-1. Epub 2024 Feb 28. PMID: 38418805.
4 – Koch I, Poljac E, Müller H, Kiesel A. Cognitive structure, flexibility, and plasticity in human multitasking-An integrative review of dual-task and task-switching research. Psychol Bull. 2018 Jun;144(6):557-583. doi: 10.1037/bul0000144. Epub 2018 Mar 8. PMID: 29517261.
5 – Pashler H. Dual-task interference in simple tasks: data and theory. Psychol Bull. 1994 Sep;116(2):220-44. doi: 10.1037/0033-2909.116.2.220. PMID: 7972591.
