O papel do sono na memória

Você já deixou de dormir para estudar para aquela prova importante? Ou virou a noite preparando aquela apresentação decisiva para uma reunião de trabalho? E então, na manhã seguinte, pareceu que todo o esforço foi em vão? 

Mesmo que sacrificar algumas horas de sono possa parecer uma boa estratégia para ganhar mais tempo, a neurociência demonstra justamente o contrário. 

Isso porque o cérebro não fica inativo durante as horas em que dormimos. Pelo contrário, ele usa esse período para processar, organizar e consolidar as informações recebidas ao longo do dia. É durante o sono que muitas das experiências vividas são fortalecidas, favorecendo tanto a aprendizagem quanto o desenvolvimento de novas habilidades.  

Sabe aquele novo acorde que você treinou no violão durante o dia? Ou aquela sequência de passos da aula de dança? Enquanto você dorme, o cérebro trabalha para fortalecer essas novas conexões neurais, para que você possa lembrá-las com mais facilidade da próxima vez.

Como a memória é formada

A memória é um processo dinâmico, multifacetado, composto por várias etapas. Para que uma informação seja transformada em memória a ser usada no futuro, o cérebro promove três etapas: codificação, consolidação e recuperação1.

A primeira é a codificação, que ocorre quando entramos em contato com algo novo, uma informação, experiência ou habilidade, e o cérebro cria um registro neural. Mas essa é uma etapa influenciada pelo interesse nesse algo novo, pela atenção e pelo nosso estado emocional2.

Já durante a consolidação, essa nova informação se torna mais duradoura. Muitas dessas informações são registradas pelo hipocampo, que atua como uma “central temporária”3

Então, quando dormimos, elas deixam de depender tanto do hipocampo e seguem para o córtex cerebral, passando pelo processo de consolidação sistêmica. Ali, elas serão armazenadas por períodos mais longos de tempo4,5.

Enfim, quando precisamos acessar essa informação, o cérebro promove a recuperação. Sabe quando você lembra daquela resposta durante a prova? Isso é a recuperação, acessando uma memória consolidada1.

Como dito anteriormente, enquanto você dorme, o cérebro está ativo. Ao contrário do que se acreditava por muito tempo, o cérebro trabalha durante o sono em etapas fundamentais da memória.

O que acontece com a memória enquanto dormimos?

O sono é um período composto por ciclos diferentes que se alternam, e cada um deles tem finalidades específicas. (Para saber mais, acesse o conteúdo completo aqui.)

Durante o sono NREM, mais especificamente na fase mais profunda, o NREM 3, acontece a consolidação das memórias declarativas, relacionadas ao conhecimento de fatos e acontecimentos que podem ser lembrados voluntariamente. Por exemplo, o nome de alguém que acabamos de conhecer4,6.

Ainda durante o NREM 3, acontece a reativação da memória. O cérebro reproduz de maneira similar os padrões de atividade das experiências vividas durante aquele dia. É como se ele estivesse repassando tudo que aprendeu. Isso acontece para fortalecer essas novas conexões neurais e também transferir essas informações para regiões do córtex cerebral, onde poderão permanecer armazenadas por períodos mais longos5,7.

Agora, durante o sono REM o cérebro trabalha na integração entre o que foi recém-aprendido e o conhecimento já existente, criando então uma associação entre ideias e reorganizando experiências emocionais. É nesse estágio do sono que acontece o desenvolvimento de novas habilidades motoras, da criatividade e da nossa capacidade de resolver problemas6,8.

Lendo tudo isso, fica mais fácil entender por que deixar de dormir não vai ajudar. Enquanto seu corpo físico descansa, seu cérebro está ativo e aprendendo.

O que acontece quando dormimos pouco

Dormir pouco, além de atrapalhar a consolidação das informações daquele dia, ainda pode interferir na formação de novas memórias no próximo dia. Isso acontece porque a privação de sono interfere no funcionamento eficiente do hipocampo, onde acontece o registro inicial dessas novas memórias9.

A privação de sono também afeta a atenção, a concentração e reduz a velocidade com que processamos informações. E como esses processos fazem parte da codificação da memória, isso pode afetar o armazenamento adequado dessa nova experiência10.

E é por isso que trocar as horas de sono por horas de estudo é contraprodutivo.  Você pode até passar mais tempo revisando o conteúdo, mas pode ser menos eficiente quando precisar lembrar dele8,11.

Considerações finais

Se repetir e praticar são fundamentais para aprender, dormir também é. Se antes víamos o sono apenas como um momento de descanso, hoje sabemos que isso está longe de ser o correto. Dormir é uma etapa fundamental da aprendizagem, seja do conteúdo acadêmico ou de novas habilidades motoras. 

Enquanto você dorme, o cérebro fortalece as conexões neurais, consolida memórias, organiza experiências e transforma novas informações em algo mais duradouro.

Fechar o livro, desligar o computador, ir embora da aula não encerra o aprendizado. Na verdade, é durante o sono que muitas etapas importantes acontecem. Então, da próxima vez que você pensar em trocar suas horas de sono, talvez valha a pena reconsiderar. Prefira dormir melhor, mais cedo e deixar seu cérebro trabalhar.

1 – SQUIRE, L. R.; WIXTED, J. T. The Cognitive Neuroscience of Human Memory Since H.M. Annual Review of Neuroscience, v. 34, p. 259–288, 2011. 

2 – BADDELEY, A.; EYSENCK, M. W.; ANDERSON, M. C. Memory. 3. ed. New York: Routledge, 2020. 

3 – KANDEL, E. R. et al. Principles of Neural Science. 6. ed. New York: McGraw-Hill, 2021. 

4 – DIEKELMANN, S.; BORN, J. The memory function of sleep. Nature Reviews Neuroscience, v. 11, n. 2, p. 114–126, 2010.

5 – KLINZING, J. G. et al. Mechanisms of systems memory consolidation during sleep. Nature Neuroscience, v. 22, p. 1598–1610, 2019.

6 – RASCH, B.; BORN, J. About Sleep’s Role in Memory. Physiological Reviews, 2013. 

7 – WILSON, M. A.; MCNAUGHTON, B. L. Reactivation of hippocampal ensemble memories during sleep. Science, v. 265, n. 5172, p. 676–679, 1994. 

8 – WALKER, M. P.; STICKGOLD, R. Sleep-dependent learning and memory consolidation. Neuron, 2004. 

9 – YOO, S. S. et al. A deficit in the ability to form new human memories without sleep. Nature Neuroscience, v. 10, n. 3, p. 385–392, 2007.

10 – LIM, J.; DINGES, D. F. A meta-analysis of the impact of short-term sleep deprivation on cognitive variables. Psychological Bulletin, v. 136, n. 3, p. 375–389, 2010. 

11 – MEDIC, G.; WILLE, M.; HEMELS, M. E. H. Short- and long-term health consequences of sleep disruption. Nature and Science of Sleep, v. 9, p. 151–161, 2017.

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