Quando a autocobrança se veste de responsabilidade

Você já percebeu que uma das primeiras coisas que aprendemos na vida é a importância de cumprir nossos deveres? Desde pequenos somos ensinados que honrar compromissos, fazer o nosso melhor e ser confiáveis são qualidades admiráveis. Não por acaso, pessoas comprometidas costumam ser vistas como maduras, competentes e dignas de confiança. 

Mas, é preciso ficar atento, porque existe uma linha muito fina entre ser responsável e viver sob autocobrança constante. Isso porque muitos de nós acreditamos que estamos sendo comprometidos ou até disciplinados, quando, na verdade, vivemos sob uma cobrança interna que parece impossível satisfazer.

Em uma cultura que valoriza produtividade, desempenho e resultados rápidos, não é difícil entender por que tantas pessoas passaram a se cobrar mais do que realmente são cobradas pelos outros. Aos poucos, a exigência deixa de vir apenas do ambiente e passa a morar dentro de nós. O que parece responsabilidade acaba sendo, muitas vezes, sofrimento.

O que é responsabilidade?

Do ponto de vista psicológico, agir com responsabilidade depende de habilidades cognitivas conhecidas como funções executivas, entre elas planejamento, organização, controle inibitório e tomada de decisões1

Na prática, a responsabilidade é entendida como nossa capacidade de entender que ações têm consequências, de assumir compromissos e também de agir de acordo com nossos valores pessoais.

Ou seja, a responsabilidade leva em conta tanto os nossos objetivos quanto os nossos limites. 

E o que é a autocobrança?

Você já se sentiu culpado ao descansar, como se devesse estar trabalhando naquele momento? Revisou aquele relatório múltiplas vezes por medo de encontrar qualquer erro?  Ou sentiu que mesmo quando o resultado foi bom, nunca é o suficiente?

Se você respondeu “sim” a alguma dessas perguntas, talvez não esteja apenas sendo responsável. Talvez esteja convivendo com a autocobrança. 

A autocobrança surge quando deixamos de perceber a cobrança como algo externo, e passamos a exigi-la de nós mesmos. Começamos a acreditar que nosso valor depende do nosso desempenho. Se entregamos o resultado esperado em menos tempo, somos muito inteligentes. Do contrário, não valemos nada, nos sentimos incompetentes.

Esses comportamentos podem parecer responsabilidade. No entanto, muitas vezes são sinais de uma autocobrança que deixou de ser saudável. 

De acordo com a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse padrão de cobrança excessiva está relacionado a crenças consideradas comuns na sociedade, tais como: “preciso dar conta de tudo”, “errar é fracassar”, “não posso descansar até estar perfeito”2.

O grande problema é que normalizar essas crenças traz consequências negativas como ansiedade, perfeccionismo e sensação constante de insatisfação.

Quando responsabilidade se torna autocobrança

ResponsabilidadeAutocobrança
Assume compromissosAssume responsabilidades demais
Reconhece limitesIgnora limites
Aprende com os errosSe pune pelos erros
Valoriza o esforçoExige perfeição
Descansa quando necessárioDescansar gera culpa
Ajusta expectativasNunca considera suficiente

Veja como é fácil confundir autocobrança com responsabilidade. Essa confusão tem mais de uma causa. Atualmente, a nossa sociedade promove uma cultura da produtividade, onde valorizamos alta performance e resultados rápidos. 

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve que vivemos em uma “sociedade do desempenho”, onde internalizamos as cobranças e pressões por desempenho e eficiência, e acabamos gerando uma cobrança pessoal3.

Outra origem para essa confusão está na busca por perfeccionismo, porque não basta entregar rápido, é preciso entregar antes do prazo, sem erros e fazer mais do que é solicitado. Essa busca pela perfeição pode se tornar prejudicial quando se torna uma regra, tornando qualquer resultado abaixo do perfeito em insuficiente, e pode aumentar o risco de problemas como ansiedade, depressão, estresse e burnout4.

Além dessas razões, a autocobrança ainda pode ser aprendida ao longo da vida. Por exemplo, quando uma criança é cobrada constantemente sobre seu desempenho escolar, por entregar notas altas e também é comparada a outros, ela pode desenvolver uma visão de que amor, carinho e reconhecimento de valor vêm de entregar desempenho.

Construindo responsabilidade saudável

Para que alguém possa superar a autocobrança ela não deve abandonar a responsabilidade, mas sim construir uma relação mais saudável com ela.

Um dos primeiros passos nessa jornada é aprender a autocompaixão. A autocompaixão é capaz de nos ajudar na busca por motivação, persistência e bem-estar. E, mais importante, sem desistir dos nossos objetivos5,6.

  • Você já experimentou tratar a si mesmo com a mesma empatia que você trata o próximo?
  • Você exigiria para um amigo a mesma perfeição que pede de si mesmo? 
  • Quando um colega de trabalho erra, você o chamaria de burro e incapaz como faz consigo mesmo?

A autocompaixão pode te ajudar a refletir antes de se acusar, e ajudar a construir uma avaliação de si menos punitiva e mais equilibrada. E isso não significa deixar de buscar crescimento ou diminuir a responsabilidade. É mais sobre aprender com os erros sem se punir por eles.

Apesar de parecerem similares, responsabilidade e autocobrança são diferentes. A responsabilidade não exige perfeição nem ignora seus próprios limites.

A verdadeira responsabilidade talvez não esteja em exigir cada vez mais de si, mas em reconhecer que você continua tendo valor mesmo quando erra, precisa descansar ou não consegue fazer tudo perfeitamente.

1 – DIAMOND, Adele. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135–168, 2013. 

2 – BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022. 

3 – HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017. 

4 – HEWITT, Paul L.; FLETT, Gordon L. Perfectionism in the Self and Social Context: Conceptualization, Assessment, and Association With Psychopathology. Journal of Personality and Social Psychology, v. 60, n. 3, p. 456–470, 1991.

5 -NEFF, Kristin D. Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, v. 2, n. 2, p. 85–101, 2003.

6 – NEFF, Kristin D. Self-Compassion: The Proven Power of Being Kind to Yourself. New York: William Morrow, 2011.

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